quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ferida aberta

Dói, dói, dói...
Que bate, dói, dói...

Dói da ponta
dupla
que meu cabelo faz
até a unha
dura
do meu mindinho
do pé
que ta guardado
pra quando
a minha caixa
torácica
acordar doendo,
ou pra quando
as unhas das mãos
acabarem.

Dói a quantidade
de roupa dos outros
que só passaram.
Dói a quantidade
de roupa minha
que foi
e não voltou.
Dói do tamanho
da chama de fogo
que sai
da minha boca
quando grito
na sua cara
que
ja não tenho mais
medo de você
EU NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ
VOCÊ NÃO ME ASSUSTA MAIS.

Dói a altura
da minha janela
pro chão,
com todos os arranhões
que consegui
pulando
pra fugir
do cárcere
disfarçado
de amor
e cuidado.
Doeu mais
que todas as vezes
que ele
me machucou.

Doeu e ainda dói.
Ainda vai doer.
Não sei até quando,
espero que logo.

Vinte anos sozinha é muito tempo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

tava frio
tava muito frio
e, veja bem,
aqui não faz frio.
aqui faz muito calor
tipo, mormaço.
aí bateu 19°
naquele negoço
lá da 13 de julho.
termômetro.
dizia que era
o dia mais frio
dá história
daquela cidadezinha.
eu congelei.
nem roupa pra isso
eu tenho.
só ando de short,
regata,
com calor,
desejando uma brisa
fim de tarde
cinelândia.
aí peguei meu ônibus
atravessei a cidade
dentro de um caixote
com rodas,
superlotado,
tipo sardinha.
cheguei em outros
caixotes
de concreto
fixos,
iguais,
cinzas,
rígidos.
o céu
tava tão
mais ou menos
que ficava em cima
de todos os muros.
aí eu vi um ponto azul.
e mais um.
e mais vários.
e aí eu te vi
em todos os lugares,
de todas as formas,
desenhada,
escrita,
viva,
alí,
presente,
correndo,
correndo muito!
percorrendo
cada pedaço
de parede,
chão,
teto.
tirei o casaco,
já não fazia
tanto frio assim.
vi que tava
de blusa nova.
azul,
com um arco-iris
no peito esquerdo
escrito assim:
o verão deveria durar para sempre.
ou alguma coisa parecida.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Metralhadora

Eu digo que
foram uns
quarenta minutos
só deixando
a máquina
funcionar
sem nem perceber.
trararararararararara.
Falando.

Chega o momento
que nem
uma cabeça geminiana
aguenta mais.

A garagem
me recebe
com aconchego
e um cigarro na boca.
Ou quatro.
Trago desesperadamente,
um atrás do outro,
com esperança
de que além de
baixar minha pressão,
tire uma memória
que não aconteceu.

Tomei um banho
pra passar o calor
que veio junto
da saudade carnavalesca,
só me deixou com mais frio
e sem você
ou uma coberta
pra me esquentar.
O eterno dilema
de se cobrir
mas deixar um pé
do lado de fora
com medo do calor.

Tentei também me distrair
vendo as fotos de carnaval
mas foi justamente isso
que me trouxe
pro lado de fora
da sua casa,
como poderia?

Escrevo.

Escrevo
porque cansei
de me ver engasgada
e vomitando
tudo fora de ordem,
nas piores situações,
explodindo sem ver
quem vai receber
uma pedrada na cabeça





sábado, 17 de junho de 2017

São João

Eram três e quarenta da manhã 
e eu 
ainda não tinha dormido. 

O barulho das bandeirolas 
sempre me deixa confusa
não sei se é chuva ou são joão
dessa vez era 
são joão 
e chuva. 
levantei,
fechei um trevo 
na sala
e fui pra janela
porque mainha
tem alergia,
mesmo depois
de dez anos. 

Abri
um pouquinho
que é
pros respingos
não apagarem 
o fogo
do fumo. 
chovia 
mas não chovia tanto 
a ponto de
encharcar,
alagar,
inundar,
afogar
os carros da garagem.
ou meu pés
antes de sair de casa. 

Assistia os pingos
caírem 
em outro pingos 
que já eram 
um poça
com vários pingos
juntinhos.
O problema, 
ponto chave, 
quebra-cabeça,
transtorno
é que eu
não tenho galochas
e as vezes o supermercado 
foi tão pouco
que não tem
sacola plástica
do Gbarbosa.
a unica solução é
encostar, 
pisar,
afundar,
sentir
a água da chuva 
com esgoto,
xixi de rato.

mas como ter nojo
se eu
sou 
o próprio
rato? 

Ontem, 
foi chuva rala, 
mas já deu no jornal
que amanhã
vai ter tempestade
e eu
ainda não tenho
galochas.  



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quinta-feira, 13 de abril de 2017

na casa de vovó
tinha uma cadeira que era
tão dela
que tinha a marca
da bunda na cadeira
do chinelo no chão encerado
das mãos no apoio escorregadio

tão dela
que tinha os dedos
pequenos e gordos
dos bruguelos da casa

tão dela
que tinha a marca
do cinto
que vovô batia nela
e rebatia
na cadeira

hoje, ninguém senta na cadeira
ou fala com vovó

Virose

escrevo
nesse
pe
da
ço
de parede
porque
folha
alguma
aguentaria
o vômito do jantar

domingo, 5 de março de 2017

Você deita pra dormir,
se aconchega inteira,
se encaixa
e começa a ouvir,
incessantemente,
um mosquitinho no pé do ouvido.

Ainda de olhos fechados,
passa a mão
uma,
duas,
três,
quinze vezes
e não acerta.
Parece que é coisa da cabeça.

ZUM
ZUM
ZUM
Inferno.

Agora você já senta na cama de uma vez só, puta, porque o mosquito não te deixa em paz.

Quatro e cinqunta da manhã e ta desesperada balançando os braços pra todos os lados na esperança que algum movimento acerte o maldito.
Não adianta.
Acho que é coisa da cabeça mesmo, preciso voltar pra terapia.